Bagaço de cana vira potência energética verde

O setor sucroenergético brasileiro vive um momento decisivo. A safra 2025/26 da cana-de-açúcar acendeu um sinal de alerta: segundo levantamento da NovaCana, a moagem deve chegar a 596 milhões de toneladas, uma queda de 4,1% em relação ao ciclo anterior.

O motivo? Condições climáticas desfavoráveis e um ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) mais baixo, que impactam diretamente a produção de etanol e açúcar, os pilares tradicionais do setor.

Mas há um novo protagonista despontando nesse cenário: a bioeletricidade gerada a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar — uma fonte limpa, previsível e cada vez mais essencial para a segurança energética do Brasil.

Quarta fonte de energia renovável

Entre as biomassas utilizadas, o bagaço e a palha da cana ocupam um lugar cada vez mais importante, com uma produção de energia também em crescimento. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em 2024, a cogeração a partir da biomassa da cana garantiu cerca de 37 TWh de eletricidade, o que representa 56% da geração da usina de Itaipu.

Esse volume coloca a biomassa como a quarta fonte renovável mais importante do país, atrás apenas da hídrica, eólica e solar — e o melhor: sem emitir carbono e aproveitando um resíduo que antes era subestimado.

Além de gerar energia limpa, o uso do bagaço reduz a necessidade de acionar termelétricas fósseis, mais caras e poluentes, ajudando o Brasil a avançar rumo a uma matriz elétrica mais sustentável e equilibrada.

Com mais de três décadas de atividade e quase 400 usinas, a cogeração a partir da cana encontra diferentes estágios, mas tem evoluído do ponto de vista tecnológico nos últimos 20 anos, avalia Frederico Becker, diretor Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise Br).

Além disso, o advento da inteligência artificial também é uma tendência nas usinas para otimizar a oferta de eletricidade. “O controle avançado de processos tem um algoritmo preditivo que prevê o que vai acontecer em dez, quinze minutos. Isso reduz muitas perdas e ineficiências do processo”, explica.

Estabilidade e segurança energética

Outro ponto positivo é o equilíbrio sazonal. A safra da cana ocorre justamente no período seco, quando os reservatórios das hidrelétricas estão em níveis mais baixos. Isso transforma as usinas sucroenergéticas em parceiras estratégicas do Sistema Interligado Nacional (SIN), fornecendo energia confiável quando o país mais precisa.

Diferente das fontes solar e eólica, cuja geração depende das condições climáticas, a bioeletricidade da cana possui uma curva previsível e estável — característica essencial para garantir segurança e confiabilidade ao sistema elétrico nacional.

Oportunidade de negócio e política pública verde

Para o setor, a venda de energia elétrica significa diversificação e estabilidade de receita em tempos de margens apertadas para açúcar e etanol. Para o Brasil, é um ativo estratégico de segurança energética e redução das emissões de carbono.

Com políticas públicas que valorizem essa fonte — como remuneração pela capacidade firme, incentivos à geração próxima dos centros consumidores e contratos de longo prazo —, o país pode transformar a bioeletricidade em um dos pilares do futuro energético nacional.

Energia do futuro, orgulho do presente

A safra 2025/26 trouxe um lembrete importante: depender apenas de açúcar e etanol é arriscado. A bioeletricidade da cana surge como o verdadeiro pilar de estabilidade e sustentabilidade, tanto para o setor sucroenergético quanto para o sistema elétrico brasileiro.

O Brasil tem, literalmente, energia limpa nas mãos — e não pode abrir mão de um ativo que une inovação, meio ambiente e desenvolvimento.


O bagaço da cana deixou de ser um resíduo. Agora, é força motriz de um futuro mais verde, eficiente e positivo

Com informação de artigo de opinião assinado por José Piñeiro e G1 Agro

Fotos: Ceise Br/ Divulgação

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